segunda-feira, 15 de outubro de 2012

VINGANÇA FRUTÍFERA

Não sou muito de comer frutas, mas de tanto minha mãe e as minhas calças jeans, que a cada dia ficam mais apertadas, me cobrarem esse hábito, tenho procurado uma vez ou outra comer um morango, uma banana ou mesmo uma uva. Hoje senti uma enorme vontade de comer uvas e achei ótimo que o desejo tenha sido exatamente numa quarta-feira, porque é o dia que tem promoção de frutas no mercado perto da minha humilde residência.

Fui toda animada para o mercado para comprar o objeto de meu desejo. Quando cheguei lá vi que tinha algumas promoções que eu não podia dispensar. Entre uma prateleira e outra, em busca dos preços bons, avistei alguns conhecidos que não tive como não cumprimentá-los com um abraço e um olá, (falar com os amigos é tão bom quanto é comer, e comer a uva eu sabia que não tinha erro, mais cedo ou mais tarde eu iria para casa com ela, sentaria no sofá para assistir TV e me deliciaria com aqueles cachinhos verdes - opto pelas verdes para manter a esperança de que essa atitude saudável ainda possa me render alguns gramas a menos na balança, e quem sabe, um centímetro sobrando nas minhas calças jeans, para que eu possa respirar com mais tranqüilidade, daí tudo ficaria perfeito).

Estando no setor das frutas avistei as mangas e, apesar de não gostar muito de manga, aquelas pareciam ótimas. Peguei em algumas até escolher uma. Nem sei bem ao certo como escolher frutas porque elas nos enganam; vejam bem, as mangas por exemplo, às vezes parecem lindas e quando você corta estão estragadas; as melancias, quando cortadas estão sem doce ou estragada, os abacaxis azedos, os melões sem gosto, as mexericas secas e por aí vai. Algumas pessoas dizem que têm algumas técnicas, mas como nunca vi um artigo científico sobre isso ou mesmo alguma recomendação do INMETRO, então acho que essas técnicas não são nem 75% garantidas. Deve ser mais uma dessas crendices populares, porque o que vale mesmo é a sorte. Até fiquei pensando sobre isso e acho que alguém deveria inventar uma máquina para fazer uma ressonância magnética frutífera, assim ninguém ficaria frustrado com as frutas compradas.

Quando cheguei em casa sentei ansiosa para desfrutar daquela maravilhosa manga e na primeira facada para descascá-la, a fruta estava pálida, sem graça, meio verde. Mas podia ser que a aparência enganasse; para saber a verdade teria que comer e na primeira mordida a constatação: frustração geral, pois também estava sem gosto.

Como eu não desisto fácil de uma comida, decidi persistir na comilança. Depois de umas poucas mordidas acabei me engasgando com um pedaço da tal manga. Entao, comecei a achar que havia um complô contra o meu desejo de vida saudável regrada a frutas: "já que a fruta não estava gostosa será que eu não podia pelo menos comê-la sem ter a sensação aterrorizante de que corria mais risco em comer um pedaço de manga do que em andar no meu velho carango a 160km/h?"

E foi entre uma tosse e outra, andando pela casa para tentar me aliviar por completo do pedaço de manga assassino que me lembrei que, na verdade, eu tinha ido ao mercado para comprar uvas. Será o quê que tinha acontecido com as uvas verdes, aquelas que eu ansiava comprar?! Junto com minha pergunta veio também a resposta para aquilo tudo; acho que foi a uva que resolveu se vingar de mim, porque eu a esqueci no mercado, porque eu fui lá para que ela deixasse de ser uma uva abandonada e passasse a ter um lar, guardada numa vasilha depois de bem lavada só esperando para ser comida. Plantei na dona uva verde a esperança e depois a abandonei. Isso de realmente não se faz, mas também não precisava ela me convencer a comer manga, que nem gosto muito, e ainda quase me matar engasgada. Assim, vou passar a acreditar que além das frutas nos enganarem tendo cara boa e gosto ruim, elas podem ser vingativas e, desse modo, nem minha mãe vai me convencer a comê-las e nem eu vou querer perder peso comendo-as. Não valerá o risco! É melhor comprar calças novas, porque elas não vão querer se vingar de mim.

Luciane Dias
09/12

terça-feira, 18 de setembro de 2012

PROMESSAS DE FIM DE ANO


        Dizem que brasileiros vivem de promessas e eu como não gosto de negar minha "raça", então, também sigo esse padrão. Na última virada de ano, entre dezembro e janeiro, fiz várias promessas e seguindo algumas dicas que vi em programas de televisão, como escrever objetivos gerais e outros mais específicos, escrevi todos em uma velha agenda. Dessa vez foi com a fé que eu precisaria para ter a determinação para pôr todos em prática, independente da dificuldade e da importância eu apostaria toda minha audácia para vê- los caminhando rumo à realização.

       Para tudo isso ser um compromisso selado, eu publiquei meus intentos para 2012 em uma rede social. Li em um livro, acho que foi "O monge que vendeu sua Ferrari" - que isso é bom, porque as pessoas se comprometem junto com a gente e passam a nos cobrar e isso, por consequência impulsiona-nos a tentar pôr em prática os compromissos assumidos publicamente.

        Eu realmente comecei a correr atrás de alguns objetivos, voltei a escrever, a ler alguns livros que já estavam guardados há muito tempo, me inscrevi em um curso que queria fazer há algum tempo e tudo isso embalada pelas cobranças virtuais de meus amigos que se comprometeram comigo. Mas eis que o tempo vai passando e, como dizem, "tudo caí no esquecimento"; se o "tempo apaga até feridas", imagina minhas promessas.

        Cada vez que encontrava minha velha agenda com os objetivos: anotados eu a guardava em um outro lugar. Acho até que eu procurava um lugar mais difícil de encontrá-la, porque, assim, eu não teria que encarar a ideia analítica de estar ou não correndo atrás de realizar meus objetivos. Lembro-me tê-la procurado-a por duas ou três vezes, quando bate aquela tristeza repentina, aquele pensamento de que a vida anda sem sentido e eu igual, louca, ficava procurando-a pelas gavetas para dar uma lida e me re-comprometer - acho que isso é um neologismo; nunca vi ou ouvi essa palavra. Então, o sentimento é o de que reler aquilo poderia dar uma nova ênfase na vida no dia seguinte, como também fazer ver que a vida é boa e que eu tenho feito algo por ela já que alguns objetivos tinham sido realizados. Os sentimentos daí por diante são tantos que merecem um texto só para eles, então voltemos ao que interessa.

       Já em meados de agosto, em um dia que estava gozando de pleno esquecimento sobre essas coisas de ficar prometendo ou mesmo sem querer achar que eu preciso ter ou não objetivos na vida, estava conversando com uma amiga pelo chat de uma dessas redes sociais, quando digo para ela que ando muito à-toa, gastando muito tempo com as bobeiras virtuais. E o que leio logo em seguida: o comentário da minha amiga "Pior é que você nem cumpriu suas promessas". Na hora eu sorri e concordei, mas sabia que isso era mais grave, porque o que li no livro sobre as pessoas se comprometem com a gente, era verdade, mas, no meu caso, parece que se comprometeram mais que eu mesma. Minha amiga conhece a dimensão do meu comprometimento e, como convive comigo, pelo seu comentário percebi isso: eu não consegui pôr muita coisa para acontecer de verdade; a determinação e a fé ficaram grudadas nas palavras em alguma folha de papel envelhecida!

        Será que se eu publicar na rede social uma enquete perguntando quem se lembra dos meus objetivos verei que fui uma farsa nesse ano? Que convidei todos os amigos para a festa da realização pessoal, deixei todos esperarem e eu mesma sumi e fui levar a vida numa boa, de uma forma bem tranquila e sem responsabilidades com promessas?!!! Agora tudo poderia ser dúvida e sofrimento, se ela mesma, a minha amiga Ana Claudia, não tivesse me apresentando a solução: - Esqueça tudo e passe a programar suas promessas para 2014, porque o fim do ano está aí. Só me restou, então, sorrir e concluir que esse negócio de comprometer e publicar pode ser legal mesmo, porque daí os amigos nos cobram, mas nos apresentam soluções e nos perdoam por não concretizar os objetivos de forma mais fácil e gentil do que nós mesmos somos capazes de fazer. Só por isso já vale a pena.

Luciane Dias/2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

PRÉ- CONCEITO

        Temos visto muitos debates sobre preconceito. É possível achar inúmeros artigos, textos, blogs sobre o assunto e na verdade quase que 100% deles defendendo o fim do preconceito independente de qual seja. Hoje a sociedade tenta combater o mal que ela mesma plantou, e nós a cada dia mais nos declaramos antipreconceituosos até mesmo porque isto dá um certo status e evita que outros nos recriminem. Mas aceitar as desigualdades e colocá-las todas a pé de aceitabilidade é um papel difícil, principalmente porque alguns conceitos não nos foram apenas ensinados, parece muito mais que foram tatuados em cada um de nós e alguns deles com mais tinta, com mais força e em tamanhos maiores, evitando assim que o tempo ou qualquer laser apague. Para extinguir o preconceito, não basta dizer que esta atitude é intolerável no século XXI, fazer palestras, criar leis que proíbam, que incentivem inclusões, participações, com certa franqueza, não sei dizer qual a receita, mas acredito que isto seja um processo lento e que a saída não seja bem tentar impor um novo conceito dizendo que não é porque a pessoa é negra, homossexual, roqueira, se veste desta ou daquela forma, que ela não é do bem, tem problemas ou algo assim. É preciso desconstruir uma idéia que já foi absorvida por nós como verdade suprema algo que nos foi impingido.

        Sinto tudo isto quando me deparo com algumas situações, declaro-me antipreconceituosa e capaz de entender as diferentes escolhas, as diferenças das pessoas e até uma pessoa moderninha; moderninha é igual pessoa que aceita todas as escolhas da vida moderna, mas algumas das minhas atitudes contradizem o que minha boca grita, o que meus lábios proferem e o que meu lápis divulga. A última destas atitudes aconteceu outro dia na Casa de Deus. Fui a uma igreja de romaria e estava sentada esperando a missa começar, quando percebi a dois bancos à frente do que eu estava, um casal com um filho e uma senhora, mas não era qualquer casal. Era um homem de cabelo "moicano", com várias tatuagens pelo braço, vestido de calça jeans, blusa e tênis pretos, que mesmo dentro da igreja mantinha os óculos escuros no rosto e usava brincos e argolas na orelha; a mulher não divergia dessas características, também estava de preto, cabelos curtos, tatuagem nas costas e brinco no nariz; o rapazinho devia ter uns 9 anos e tinha um corte de cabelo diferente e todo espetado, brinquinho na orelha e também vestia uma blusa preta, enquanto a senhora era somente uma senhora em oração. Vendo aquela cena, o preconceito deu um tiro de largada dentro de mim e comecei a construir meu pensamento: "esse tipo de pessoa não assiste missa; o que estariam fazendo ali aquelas pessoas, só se estivessem acompanhando aquela senhora, não era condizente o tipo de pessoa com fé a ponto de fazer parte de qualquer manifestação religiosa e de romaria. Será que estariam ali só porque fizeram algum tipo de promessa? Será que aquela família não fazia parte de outros rituais?" Sei lá quantas perguntas me fiz sobre a presença daquelas pessoas num tempo religioso. No fundo, confesso que eram mais que perguntas, porque algumas delas eu parecia responder e, assim, meu preconceito foi tomando conta de mim a ponto de ficar minutos analisando o comportamento deles e por diversas vezes durante a missa detive minha atenção naquele banco fazendo novas perguntas e reconstruindo meu pré-conceito.

        Não sei se tive um pré conceito ou um preconceito sobre aquelas pessoas. Quero acreditar que tive um pré-conceito, pois eu não os conhecia, não sei do caráter deles, não sei como aquela família se estabelece entre eles mesmos, da fé que os cercam. Entã,o pelo estereotipo, eu criei um conceito antecipado que foi se diluindo durante a missa, quando eu percebi que eles eram fiéis de Deus e que estavam ali por eles mesmos, que participaram da missa muito mais que eu, comungaram, cantaram, fizeram todas as orações, mostraram a religiosidade independentemente da senhora, que agora mais do que nunca era só uma senhora que assistia à missa. No término da missa, achei que os conhecia pelo menos um pouquinho e que não tinha nada contra eles. De repente, adoraria ter pessoas que se vestiam diferente como amigos e com certeza, eles poderiam me ensinar muito mais coisas do que aprendi com eles naquele dia. Sim, porque eles me ensinaram muito mais que as palestras que já vi, os textos que li, e as leis que me obrigam a acabar com o preconceito. Saí da missa muito mais estereotipada como preconceituosa do que eles como pessoas diferentes.

Luciane Dias
jul/2012

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

CANTIGA DE RODA

       Os direitos de proteção ao meio ambiente e aos animais invadiram todos os setores da sociedade, alguns que a gente nem imagina e se a gente não se atualiza acaba passando por situações vexatórias. Foi o que aconteceu comigo.

       Estava com minha sobrinha de dois anos e meio brincando, quando ela me deu as mãozinhas e começou a dizer algo como 'o gato comeu, miau'. Eu, como uma supertia, identifiquei logo a brincadeira que ela queria, então, de mãos dadas comecei a cantar para ela a música que já existe há milhões de anos: "Atirei o pau no gato tô tô, mas o gato tô tô, não morreu reu reu; dona Chica cá cá, admirou-se se, do berro, do berro que o gato deu, miau !!!"

       Meu sobrinho mais velho ficou por alguns segundos olhando aquela cena quase que embasbacado, cheguei a me sentir meio ridícula; estaria ele achando patética a cena de uma velha brincando de roda no meio da rua? Mas, de supetão, ele saiu do transe e veio correndo na minha direção e dizendo que a música não podia ser daquela forma. Então ele deu as mãos para mim e minha sobrinha e começou a cantar a música: "Não atire o pau no gato (to-to); porque isso (sso-sso); não se faz (faz-faz); o gatinho (nho-nho); é nosso amigo (go); não devemos, não devemos; maltratar os animais; miau!!!" Eu não estava acreditando naquilo e mesmo com a cara no chão pela vergonha pedi para que ele cantasse novamente para eu aprender.

       Gente, como assim? Mudaram a música, mas porque motivo será que fizeram isso?! Isso pode causar frustrações às minhas lembranças de criança e excluir a oportunidade de me enturmar com as crianças da presente geração!!! E agora? Quem protegerá minhas lembranças sem que elas se tornem um crime, quem protegerá o direito de pensar que uma criança é apenas uma criança e não um homicida em potencial, porque ouviu uma cantiga de roda?! Gente estão acabando com a inocência do mundo!!! Estão transformando o que é simples em resultados vindos da cabeça dos adultos!!!

       Mesmo meio indignada, resolvi fazer uma investigação rápida sobre o assunto para descobrir o motivo e constatei que a mudança realmente foi devido a letra da música, que teoricamente, incentivava a violência contra animais. Fiquei pensando que tipo de investigação fizeram para chegar a esta conclusão. Será que perdi a reportagem de algum matador em série que diz que começou carreira atirando o pau no gato, ou mesmo que algum matador de bichos tomou gosto depois que aprendeu na escola esta música e resolveu experimentar na vida real? Isso parece uma piada: atirar o pau no gato não quer dizer que acertou, que machucou o gato ou algo parecido. Mudar a música não diminuirá a violência no mundo, nem mesmo aquela contra os animais. Esta mudança não protege as crianças que são maltratadas a todo instante pelos pais, não diminui os abusos sexuais. Também não obriga o estado a trocar esta música por uma educação de qualidade, em que a criança tenha realmente a oportunidade de ter um bom futuro tanto na vida pessoal como na social, com meio ambiente preservado sem que desmatem todos os espaços verdes para construírem arranha-céus.

      Agora vou ficar esperando o momento em que vão mudar a música "Pai Abraão", dizendo que ela incentiva a procriação desordenada, o excesso de filhos em uma família e que é por isso que os homens de hoje tem filhos com mulheres diferentes. Só não sei se essa explicação parece lógica para este povo que muda a história da infância alheia achando que uma simples música é capaz de afetar o caráter de uma criança em formação.

Luciane Dias

quarta-feira, 18 de julho de 2012

JUNIM CRESCEU!!!



       Junim é meu vizinho, na verdade é Eduardo de Oliveira Junior, mas para nós que crescemos juntos basta, Junim. Hoje, não sei dizer a idade dele, deve ser algo entre 25 e 30, mas me lembro dele com uns 4 ou 5 anos, na verdade lembro-me dele e de outros vizinhos, época em que todos crianças brincávamos na rua. Passamos desta fase de brincadeira e hoje somos todos adultos, mas acho que eu esqueci de considerar que o fim das brincadeiras de criança era o fim de uma fase da vida.

       Um convite de casamento me alertou para este fato, Junim cresceu e vai casar!!! Mas, isto foi só um fato descrito num papel que eu li e deixei sobre a mesa. Só aceitei esta realidade quando no dia do casamento eu tirei o carro da garagem e vi a movimentação dos vizinhos para irem ao casamento do Eduardo de Oliveira Junior, o Junim crescido!

      Depois que o carro saiu totalmente da garagem pelo retrovisor vi nas calçadas os vizinhos bem vestidos, eufóricos organizando os últimos detalhes da roupa, tirando fotos, pondo os meninos no carro para não se atrasarem para o grande evento, ver o Junim dizer sim em público para a vida de adulto e pai de família. Uma calçada parecia ser mais especial, tinha muito mais pessoas e carros estacionados, era a da casa do noivo, entre várias pessoas parecia que uma brilhava mais, me pareceu ser a mãe do Eduardo Junior.

       Confesso que todo aquele agito mexeu comigo, não só me dei conta que meu vizinho cresceu e estava pronto para virar um pai de família, mas também enxerguei num dos meus retrovisores o passado, onde todos corriam como verdadeiros moleques pela rua, sem pensar que um dia teríamos a responsabilidade da vida adulta. Extasiada com aquilo tudo fiquei algum tempo com o carro parado no meio da rua, olhando pelos retrovisores, vendo a movimentação e ao mesmo tempo passeando entre as lembranças. A minha vida tinha sido simples e tinha se entrelaçado na vida daquelas pessoas por muitos momentos.

       Como um sonho louco comecei a imaginar todos na igreja, emocionadas com a importância de um enlace e me dei conta que apesar de só nos cumprimentarmos hoje em dia, tinha muito mais dos meus vizinhos em mim do que eu imaginava. Naquele momento, se pudesse, eu teria gritado convidando-os para brincarem de bandeirinha, como nos velhos tempos, e depois que nossos corpos estivessem cansados e o espírito sorridente pudéssemos sentar no meio fio, eu e meus vizinhos crianças, e desabafarmos os últimos 20 anos, falando dos casamentos feitos, desfeitos e sonhados, dos filhos, do emprego, das contas, das frustrações e alegrias, das perdas e ganhos, enfim do que a vida tinha nos transformado nestes últimos anos em que passamos a sermos apenas vizinhos.

      O barulho do carro ligado me acordou da torpidez, perpassei os olhos de um retrovisor ao outro, enxergando ali o futuro, Eduardo Oliveira Junior naquela rua brincando com seus filhos, e a mãe dele, que tanto nos vigiou da varanda da sua casa, agora estaria adulando os netos, feliz porque o Junim cresceu. Me despedindo daquela cena, acelerei o carro, aumentei o som e passei a admitir, aquela rua era a mesma desde que eu moro nela, 27 anos, mas a vizinhança tinha mudado porque o Junim cresceu, a irmã dele, a minha irmã, a vizinha do lado esquerdo, todos cresceram e eu também cresci.


Luciane Dias
Jul/2012







terça-feira, 3 de julho de 2012

ELE É BOM OU MAU ALUNO?!

     No mundo de hoje é difícil saber o que é certo e o que é errado, isto porque pelo dito popular hoje tudo é permitido. Em um parecer, um jurista diria que tudo é permitido, mas nem tudo é lícito. Um evangelizador diria que tudo é permitido, mas nem tudo é cristão. Um médico diria que tudo é permitido, mas nem tudo é saudável, assim para cada situação desencadeia um pensamento acerca do que pode e do que não pode ser correto. Mas, uma coisa é certa, os parâmetros tem se modificado junto com a cultura, a educação, os princípios morais, religiosos e sociais.

     Eu consigo perceber isso de vez em quando na escola que trabalho. Tem sempre aqueles alunos que não fazem os deveres, que vão de roupa curta ou sem uniforme, que querem ficar pendurados no celular durante a aula, que gritam com os colegas e querem resolver tudo nos tapas, que não entregam as atividades, que desafiam os professores amassando as atividades, se negando a fazer os trabalhos e nós como professores quando vemos que mesmo depois de muita conversa não conseguimos fazer com que o aluno entenda que este comportamento não é apropriado dentro da escola, partimos para o último recurso que é chamar o responsável. Mandamos um bilhete e esperamos ansiosos pelo responsável no intuito que este nos ajude a fazer com que esse aluno aprenda algo, que se ele não levar a vida acadêmica a sério, que pelo menos consiga nota para ser aprovado no fim do ano. Por vezes, quando o responsável chega à escola nossa surpresa é muito maior do que aquela que nos ronda, porque o aluno não consegui assimilar depois de 5,6,7 anos na escola as regras que persistem em serem as mesmas ano após ano.

     Na presença do representante do aluno, eu, particularmente, me sinto como uma transgressora das regras pessoais da vida daquela criança/adolescente, me sinto desolada do mundo dela, como se eu estivesse fazendo tudo de errado. Vocês podem não estarem entendendo, mas é isto mesmo, diante do representante eu passo a ser a pessoa desordeira de uma cultura já estabelecida na vida daquela criança, porque se ela já passou 5,6,7 anos na escola, ela passou muito mais na convivência de seus familiares e foram eles que ensinaram o que é certo e o que é errado. Acho que a psicologia diz algo como: são nos primeiros anos que acontece o verdadeiro aprendizado e depois ela só vai assimilando as outras informações, então os conceitos que eu passo como "educadora" para esses alunos podem ser contraditórios ao que eles receberam em suas residências, a prova disto é quando me deparo com a pessoa que vai à escola para tratar dos assuntos pedagógicos do aluno.

     A pessoa que chega quase sempre é a mãe e por algumas vezes se apresenta de um jeito bem típico: short curto, blusa mostrando a barriga, fone de ouvido e celular pendurado no bolso enquanto toca uma destas músicas que não tem propriamente uma letra, é mais algo como tchu tchu tcha, chupando chiclete e falando gíria, diz que foi ali para tratar da advertência recebida pelo filho e que gostaria de ser recebida rápido porque tem mais o que fazer em casa e que se o filho tiver feito algo errado irá apanhar muito quando chegar em casa. Outras vezes, o pai aparece na escola, mas infelizmente algumas vezes está bêbado, chega falando alto e dando tapas nas mesas.

     Diante desta situação, penso duas vezes se devo relatar a vida escolar do aluno, já nem sei se ele está errado ou se eu estou. Rapidamente entendo que o aluno não assimila as regras da escola porque ele vive em ambiente diferente, os exemplos devem falar mais forte do que as regras que eu falo para ele que devem ser seguidas. Em meio a um e outro professor que fala sobre o comportamento do aluno e a mãe também diz algumas coisas, começo a pensar que o menino não é assim tão ruim, que o comportamento dele é um reflexo da educação que recebe todos os dias, que talvez ele tente fazer diferente na escola, mas já está tudo tão intrínseco que ele não se controla. Assim, o meu lado sentimental psico-professora começa a achar que aquele menino é um anjo perante a educação que ele recebe, que ele faz uso a famosa frase "educação a gente trás de berço". É uma situação realmente desoladora, difícil de explicar e de conviver, mas com certeza capaz de me deixar com duplo peso na consciência; não posso deixar o aluno fazer o que ele quer, preciso repassar para ele o mínimo de responsabilidade, de respeito com os demais, de conteúdos, mas também tenho que respeitar a individualidade dele porque ela vem de um meio ambiente que parece estar errado aos olhos dos professores, mas de repente não da comunidade em que ele vive. Tudo aquilo é como um DNA que vai passando de geração em geração, com certeza estes pais passaram por situações semelhantes quando da sua adolescência e isto veio se intensificando pelas interferências de cada época, de cada lugar que moraram, de cada nova família que se formou e que trouxe pensamentos diferentes.

      Depois da mãe ir embora, volto para a sala de aula e entre uma aula e outra me encontro com o aluno que me pergunta o que ficou decidido entre a mãe dele e os professores, dou um tapinha nas costas dele, balanço vagarosamente a cabeça e digo para ele todos os professores conversaram no dia da coordenação sobre o caso, que o encaminharemos para o Serviço de Orientação Educacional porque precisamos rever toda a situação dele, agora a conversa tem outro foco, mas que enquanto este momento não chega, nós podemos nos encaminhar para a quadra e ter nossa aula de Educação Física, porque lá sim todas as regras são iguais independente da localidade, do padrão social, da raça ou do tamanho, as regras do jogo de futebol, de vôlei, de handebol ou de basquete são as mesmas aqui ou na China.


Luciane Dias




sábado, 16 de junho de 2012

FÉ FOTOGRAFADA

    


     Numa conversa banal uma amiga mudou totalmente de assunto e me convidou para ir para Trindade, teríamos que fazer uma caminhada de cerca de 25km em 5 horas, um percurso de fé que leva as pessoas a uma cidadezinha cheia de tradições religiosas e que tem uma das maiores festas. Fiquei animada com o convite, mas confesso que não foi para exercitar minha fé, na hora só consegui imaginar que isto podia me dar a oportunidade de fazer algumas fotos.

     Durante o percurso com certeza teria muitos exercícios de fé e se eu me concentrasse um pouco poderia tirar o atraso de nunca mais ter tentado tirar boas fotos, e até mesmo poderia fazer algumas para postar junto com minhas crônicas. Quem sabe ainda, com tantas pessoas falando com Deus, Ele me iluminaria para eu não errar tanto no foco, fazer bons enquadramentos e ser mais criativa.

     Depois de arquitetar isto um lampejo de culpa acendeu uma luz no meu lado religioso, nossa em nenhum instante eu tinha pensado em aproveitar este momento para falar com Deus, não pensei na minha fé ou em qualquer outra coisa que não fosse os registros, me preocupei até nos erros que com certeza eu cometeria nas fotografias, mas não pensei em pedir perdão pelos erros que cometo todos os dias.

     No fim do papo conclui que talvez registrar a fé das pessoas poderia aumentar a minha, já que aprendemos mais por exemplos do que por conselhos, poderia tirar muitas fotos e daí teria muitos exemplos a prova viva, sem dizer que pelo tempo que eu teria que caminhar, carregando a máquina fotográfica e outras coisitas que não são muito leves me faria em algum momento falar com Deus, pedindo proteção e força para conseguir percorrer o caminho e tirar pelo menos umas 100 fotos que fossem boas e daí planejei que não esqueceria de agradecer por tudo que tenho tido e ganhado de Deus, pediria também proteção para todos da família, do trabalho, dos ciclos amigáveis. Pronto desta forma tava fechado o acordo fotográfico da minha fé. Já estou achando que me sairei melhor na fé do que nas fotos!!!

domingo, 3 de junho de 2012

GÍRIA DESATUALIZADA

     Outro dia me senti como um programa de computador desatualizado, destes que só rodam naqueles computadores antiguérrimos.
     Estávamos numa roda de mulheres a beira de uma quadra de futsal descansando para o segundo turno da partida quando se estabeleceu um bate-papo em torno do material apropriado para a prática do esporte.

   
   Aqui, preciso fazer uma pausa no assunto para esclarecer que neste grupo que joga uma bolinha duas vezes por semana, tem mulheres de várias idades, a mais nova tem uns 14 anos e a mais velha uns 44 anos, se não afirmo com certeza a idade das jogadoras é porque nunca perguntei, nós nos reunimos exatamente para esquecer detalhes da vida que podem desconstruir a felicidade, então ali o que importa é participar da brincadeira esportiva.
     
     Depois de um ano jogando juntas e acreditando que éramos todas iguais independente de sermos casadas ou solteiras, mocinhas ou idosas “minha casa caiu” e já explico o porquê voltando a contar a história.
    
     Como eu ia dizendo, estávamos em um intervalo do jogo, conversando quando eu e uma colega chamada Ana Cláudia falávamos de uma dor no calcanhar que podia ser ocasionada pelo tênis que usávamos, então eu falava para minha colega que minha dor tinha diminuído depois que troquei meu tênis “ralé” por um com melhor estrutura.
   
     Uma outra personagem do jogo, a Ana Júlia, foi tomada de assalto pela minha frase e com uma cara de espanto aquela moiçola de 14 anos me perguntou o que era uma coisa “ralé”, se era alguma marca.
   
     Daí fui eu que fiquei sem entender, como assim ela não sabia o que era isto! Entre risos de surpresa tentei explicar que “ralé” na verdade é uma referência a camada baixa da sociedade, mas como gíria a gente usava para dizer que algo é de baixa qualidade, é ruim, é fraco, feio... sei lá, nem me lembro ao certo quantos e quais adjetivos usei na hora para tentar explicar para ela o significado da palavra.
    
      Enquanto eu explicava, minha amiga Ana Cláudia dona de um tênis “ralê” caia na gargalhada, eu não sabia se ela ria de mim por usar uma gíria tão ultrapassada ou se da Ana Júlia que não sabia o significava de uma expressão tão simples e que marcou uma geração de adolescentes.
   
     Nesta hora vi que, como a tecnologia, o linguajar também se moderniza colocando em esquecimento algumas programações recebidas em um determinado espaço de tempo. Para testar o quanto meu processador estava desatualizado e até que ponto eu conseguiria rodar meu linguajar nesta era juvenil, perguntei para Ana Júlia se ela conhecia algumas gírias como: filé, cair nas quebradas, dar um rolé, ficar grilado.
  
      Aquilo tudo parecia uma piada, porque os 15 anos de diferença entre Ana Júlia e eu até então não marcava nem um paradigma que me fazia sentir velha, conseguíamos conviver juntas numa boa, mas era bom que eu fizesse uma atualização da minha programação, nada muito grave que afetasse minha auto-estima a ponto de intensificar o uso dos cremes anti rugas. É mais fácil que tudo isto, basta prestar atenção no palavreado atual, se eu conseguir aprender as gírias dos jovens, substituindo-as pelas que aprendi quando eu era adolescente, acho que daria para continuar convivendo sem conflito, mesmo que o computador aqui seja o de 32 anos atrás.










segunda-feira, 21 de maio de 2012

COMO VOCÊ COME? EU COMO COM A CABEÇA!!!


      Há muito tempo ouço o ditado popular que diz “eu como com os olhos”, eu entendo perfeitamente este ditado, não é porque sou boa de interpretação, mas neste caso aí eu consigo absorver bem, não posso ver uma comida que desejo que ela seja minha, e claro, quanto mais bonita a comida, mais desejamos tê-la e quanto mais tem, mais comemos. Mas, desta vez foi diferente, o ditado aqui não coube muito bem.

     Cheguei à casa da minha mãe e vi uma carne descongelando, perguntei para ela que carne era aquela e ela disse que era uma carne de javali, da mesma que tinha feito há algum tempo e eu não gostei. Ela disse ainda, que aquela carne que estava ali descongelando era para ser levada para a mãe do “digníssimo” (homem que mora com minha mãe e que não é meu padrasto, se for preciso falo disto em outra ocasião). Respondido a minha pergunta me recolhi aos meus aposentos para tomar banho e esperar o almoço.

     Quando cheguei à cozinha para almoçar perguntei para minha mãe que carne era aquela que estava na panela de pressão e o “digníssimo” logo gritou de lá dizendo que tinha vários tipos de carne: costela, cupim e lingüiça. Coloquei dois pedaços de carne no meu prato, mas achei toda aquela situação meio duvidosa porque no meio daquilo tudo poderia estar a tal carne de javali e eu me negava a comer aquela carne de novo. Mesmo assim, pus a comida no prato e fui me sentar para comer.

    No caminho entre a cozinha e só sofá da minha residência passei pelo local onde estava descongelando a carne de javali, mas como eu estava muito preocupada com a carne que estava no meu prato não reparei se a carne que eu desejava que não fosse aquela cozida no meu prato ainda estava no mesmo lugar do descongelamento.

     Eu sabia que além do digníssimo dizer, minha mãe também listou para mim quais carnes tinham sido cozidas, mas por alguns momentos pensei que minha mãe tivesse me enganando, se eu penso assim é porque ela faz isto comigo desde que eu era bem mais bem mais nova e fazia isto de me enganar para ver se eu comia algumas coisas que eu não gostava, uma delas era por beterraba bem cozida no meio do feijão, ela dissolvia e deixava o feijão bem vermelho, eu então suspeitava e ficava inquirindo minha mãe, mas ela dizia que era porque o feijão era de uma marca nova e tinha acabado de ser cozido, até que um dia eu descobri que a marca nova significava beterraba que eu detestava comer. Mas, agora não dava mais para minha mãe me enganar assim né, já to bem velhinha para isto.

     Mesmo com a dúvida, sentei-me para almoçar, mas cada vez que eu olhava para aquela carne me dava uma sensação ruim, comecei a cheirar a comida para ver se tinha o cheiro forte da carne em questão, comi um pedacinho junto com o arroz e feijão, parecia bom, mas o problema era minha cabeça que queria me convencer que aquilo não era um cupim e sim um javali morto. Eu não me prendia muito ao paladar ou ao cheiro, quem tava comandando tudo era meu cérebro, ele mandava mensagem para meu estômago para rejeitar a comida, que comer aquela carne podia apresentar um grande risco para a minha integridade estomacal.

     Comecei a imaginar a cena, duas semanas depois em outro almoço de domingo com a família toda, minha mãe contando para minha irmã que tinha me enganado e que eu tinha comido javali sem nem perceber. Aí é que meu estômago começou a embrulhar mesmo, já estava quase me vendo passar mal, eu já não sentia fome e a quantidade de colheres que encaminhava a boca com a carne era cada vez menor.

    Não sei porque somos assim, capazes de comer algo e depois que sabemos o que é termos vontade ou mesmo vomitar tudo; de perdermos a fome só de se imaginar comendo algo que não gostamos e que achamos nojento; o bicho pode ser feio, esquisito, porco sei lá mais o quê, mas a carne pode ser boa, o “prato” pode ser bonito, pelo menos isto é a teoria que meu paladar e meu olho comandam, mas meu cérebro entende diferente e acho que me estômago é comandado por ele, porque eu realmente acabei comendo somente um dos pedaços de carne que coloquei no prato.

    Então voltei lá na cozinha da minha mãe e disse para ela que tinha colocado dois pedaços de carne no prato, mas que eu só tinha comido um pedaço. Toda aquela situação mexeu tanto com meu estômago, ou será que foi com minha cabeça?! Bom não sei, o que sei que nem coloquei o prato na pia para lavar, larguei lá tudo com minha mãe e fui saindo, daí sabe com quem eu encontrei?! Sim, com ele mesmo, o javali descongelante, neste momento eu não sabia se ria ou chorava, afinal de contas, eu estava mega feliz por não ter comido o javali, mas estava super triste por não ter almoçado do tanto que eu queria e precisava para matar minha fome, tudo isto porque meu cérebro traiu meu paladar.

















quarta-feira, 18 de abril de 2012

Brasília: Capital do Poder




O fato de Brasília ser capital do Brasil, isto todo mundo sabe, deixou de ser novidade há mais de 50 anos, mas às vezes, fica parecendo que Brasília é a capital do paraíso, do Éden ou algo assim.

A renomada capital tão bem desejada por Juscelino kubitschek e planejada por Oscar Niemayer parece ser dotada de uma idolatria que a coloca num pedestal tão superior às demais regiões do Distrito Federal.
Ando cansada de ouvir nos noticiários o mesmo jargão que determinado fato acontece no “Centro da capital federal”, como se isto fosse aceitável em qualquer lugar, menos em Brasília.

Outro dia o repórter de um jornal do Distrito Federal noticiava, indignado, que, em pleno coraçao de Brasília, tinha camelôs em locais inapropriados, carros estacionados em lugares impróprios, adolescentes fazendo uso de drogas durante o dia e perto de monumentos que marcam a história de Brasília, construções que fogem ao plano original da capital, fundada como patrimônio cultural da humanida.

Ele, falando daquele jeito, fazia parecer que Brasília gozava de privilégios, como se ela fosse a capital do plano celestial e por isto devesse ser impecável. Esta afirmaçao põe as demais regiões administrativas do Distrito Federal como locais indígnos, como se a localidade já o estabelecesse como local marginalizado, capaz de habitar todas as mazelas do mundo. Uma região “umbralina – nome dado pelos kardecistas, ao plano espiritual onde habita seres espirituais em estado pouco desenvolvido.

Será que ele repórter, na obrigação de saber das atualidades, esqueceu-se que Brasília tem tido os mesmos problemas das grandes metrópoles e que ela não se beneficia em nada, que o status de capital do Brasil não a torna nem melhor nem pior que as demais localidades?!

É como se o título de Patrimônio Cultural da Humanidade fosse uma carteirinha dada à Capital do Brasil imputando a ela prerrogativas. É como se os belos monumentos, as largas pistas das asas sul e norte e do eixo monumental ou as imponentes bacias do Congresso Nacional desse uma carteirada a cada um cidadão que se aproximasse do Centro da Capital Federal perguntando lhe qual o real interesse de entrar neste espaço idolatrado, salve- salve. E dependendo da resposta, desse passagem aos engravatados, mandasse os drogados para a Ceilândia, Samambaia ou Brazlândia, os ladrões para o Riacho Fundo, Taguatinga ou São Sebastião e assim continuasse fazendo distinções e enviando as pessoas ao entorno do Centro do Poder.

Quanta hipocrisia cercava aquela reportagem. É exatamente do local de status de capital, do centro do poder que se emana os maiores poblemas que a cada dia se estabelecem mais e mais em todo o território nacional. Sim, os engravatados responsáveis pelos conchavos políticos que roubam do povo a dignidade humana, que apagam do Brasil o sonho intenso e o raio vívido.

Fiquei pensando onde moraria o Sr. Repórter, se ele realmente achava que todas as cidades poderiam ter problemas, menos a grande Brasília, se em algum momento ele nao desejou que que toda a criminalidade do local onde ele mora fosse transferida para o Congresso Nacional, acabando com a farsa existente na figura representativa da democracia brasileira e de onde sai as maiores atrocidades que podem se abater sobre uma sociedade.

Neste sentido, se a criminalidade não pode se abater no coração da Capital do Brasil, o Congresso Nacional deveria ser extinto, porque com os fatos atuais da política brasieira o Congresso Nacional parece um quartel general de criminosos: ladrões, 171, matadores, usurpadores. Aquilo deveria ser tranformado em uma prisão de segurança máxima controlada pelos pais de família que trabalham honestamente. Será que os reporteres teriam coragem de noticiar esta idéia tão importante para limpar o Centro da Capital da criminalidade ?!

quinta-feira, 15 de março de 2012

AULA DE CARÁTER

Quando a gente acha que já ouviu de tudo, nesta vida vem algum fato e nos surpreende. Eu estava no trabalho logo após o feriado do carnaval e duas colegas começaram a conversar sobre o que tinham feito neste período, quando de repente, uma disse que não tinha saído de casa porque ela tinha muitas atividades para fazer referentes ao seu trabalho na igreja e das suas aulas de caráter.

Aquilo entrou nos meus ouvidos de forma meio hilária, duvidosa e ao mesmo tempo curiosa, então para não errar nos pensamentos perguntei a ela se se referia a caráter da pessoa, se era no sentido de índole referente as pessoas, algumas com bons comportamentos e outras com má condutas, se era em relação a postura socialmente aceita, ao que ela afirmou que era sim.

Ela disse que isto se fazia necessário porque algumas pessoas tem caráter ruim e outras são bom caráter. Disse também que o professor é muito bom, que ele tem boa formação, claro que não se referiam a formação acadêmica, pelo que deram a entender o professor tem curso universitário, mas as colegas se referiam a outro tipo de formação, seja ela religiosa ou qualquer outra que eu desconheça.

Enquanto elas conversavam eu mergulhava num mar de indagações pessoais, sociais e porque não dizer, cômicas. Eram pensamentos como os do mundo de Bob (desenho animado que passava na minha infância), fiquei imaginando como seria esta aula sobre a índole humana, se realmente era capaz de ensinar para alguém como ter boa conduta no meio em que está inserido. Mais que isto, seria capaz de modificar os comportamentos como o de uma pessoa com seus 35 anos e sua personalidade teoricamente já formada a ter boa índole, será que os alunos depois de frequentar estas aulas realmente mudariam suas atitudes perante os outros?!

Não pude me furtar à dúvida sobre a minha aprovação ou reprovação nessa disciplina, como também ao pensamento de como se sentiria alguém que fosse reprovado nessa matéria. Qual a seria a punição para ele? Será que tinha recuperação?! Isto porque de alguma forma tinha que se ter uma avaliação, mais que isso, só de saber que você teria que ir a essa aula, já era uma pré avaliação. Por que até onde entendi, nem todos precisavam cursar a tal aula de caráter, então acho que alguém, por algum motivo, determinava quem deveria e quem não deveria ir a esta aula.

Eu até acredito que não somos tão honestos, ninguém é totalmente honesto, mas daí ir para uma aula de caráter, parece meio estranho. Tenho para mim que todos nós, em estado normal de consciência, sabemos o que é errado e o que é certo. Então, não é que não tenha caráter, é que as pessoas não usam os princípios inerentes ao convívio em sociedade que aprendem desde cedo, na família, na escola, na igreja ou em outro meio que esteja inserido.

Quando acordei um pouco do mundo ilusório da didática comportamental do caráter, percebi que a conversa ainda continuava entre minhas colegas de trabalho. Agora quem falava era a outra colega, que dizia conhecer a fama do mencionado professor. Ela contava que inclusive afirmavam que algumas pessoas eram mau caráter porque eram descendentes de Caim.

Nesse momento não me contive, soltei umas gargalhadas que chamaram atenção, mas não quis participar do assunto, dada a minha ignorância bíblica. Claro que aí coube um último pensamento: como este povo conseguia provar quem era descendente de Caim, e mais ainda, provar que a genética persistiu a tantas gerações a ponto de ainda permanecer em um individuo tornando-o uma pessoa de mau caráter. Para este indivíduo, nem a aula de caráter vai adiantar muito por que o problema é genético, daí, acredito que seja um mal quase que sem cura.

Toda esta história era muito complexa para minha cabeça, então deixei a sala onde estávamos, imaginando se eu devia me matricular numa destas aulas de caráter ou se apenas deveria ficar mais antenado nas coisas para não errar. Mas de qualquer forma sai feliz, por que elas não me convidaram para a “bendita” aula de caráter.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A CONTA DO PERDÃO


Desde pequena ouço dizer que temos que perdoar 70x7, confesso que entendia pouco sobre isto, não conheço muito da Bíblia, mas depois que aprendi a fazer a conta, comecei a pensar em quem sabe guardar alguns perdões para algumas pessoas especiais ou para situações que realmente fossem sérias.

Era um método fácil, poderia escrever num caderninho 490 linhas para ir anotando cada vez que eu perdoava, sem esquecer que eu devia dividir isto por pelo menos 75 anos que é mais ou menos a expectativa de vida do brasileiro. Depois pensei que deveria ponderar o uso dos meus perdões, pontuando para aqueles pessoas que também me perdoavam ou que de repente eu poderia precisar de perdão.

Não podia deixar de considerar que antes de dar a sentença final do perdão tinha que ser feita uma análise profunda se o fato realmente me ofendia, porque daí eu não gastaria alguns perdões à toa, se falo isto é porque sei que às vezes, uma situação parece ser mais dramática do que é, e depois de 3 ou 4 dias, o acontecido não passa de uma mera chateação.

Fiquei pensando como seria a situação quando alguém me pedisse perdão e eu, tendo que explicar que eu gostava muito dela, mas que como eu tinha alguns princípios lógicos sobre a conta do perdão não dava para perdoá-la, que nossa relação (amorosa, amigável, profissional, familiar) teria que acabar.

Aí a coisa começou a ficar séria! Vi que o status que a pessoa ocupava na minha vida também deveria ser um critério. Pense bem, eu não perdoar minha mãe, pai ou irmã, seria imperdoável e como eu desejava ser perdoada, porque gostaria de viver para sempre com eles, deveria guardar perdões para eles.

Me perguntei então, se eu seria capaz de viver com alguém sem perdoá-lo, não consegui chegar a uma resposta. Mas, teve um dia que assistindo a um programa de televisão, ouvi um padre dizer que perdoar não é esquecer, que perdoar é não crucificar a pessoa pelo que ela fez, é aceitar os defeitos dela e a condição humana de que todos erram. Não sei ao certo se foi bem assim que ele falou, confesso que não sei se entendi bem ou se quis me aproveitar de suas palavras para facilitar minha missão de saber perdoar.

Assim, comecei a ver que este negócio de perdão não era muito fácil, e o pior foi que o padre disse, que às vezes, precisávamos fazer uma análise se realmente tínhamos conseguido perdoar as pessoas, se apesar de não esquecer o que gerou o desconforto isto não nos impedia de prosseguir na vida.

Com isto resolvi rever minha lista de perdões, os critérios adotados por mim, quais se encaixavam nas recomendações cristãs dadas pelo homem que prega a palavra de Deus e entende mais que eu sobre isto, pelo menos na teoria e vi que isto levaria um pouco mais de tempo do que eu imaginava.

Vi que alguns dos perdões que eu tinha anotado ainda me massacravam num sentimento antigo, vi que algumas coisas que perdoei hoje se pareciam tão patéticas que na atualidade jamais entrariam na lista de perdão, vi que em alguns momentos da minha vida eu tinha usado muitos perdões, ocasiões que eu me encontrava em desarmonia comigo mesma. E foram tantas reflexões sobre isto, que não pude deixar de ver que eu não tinha aprendido nada ainda sobre a cota do perdão.
A conta do perdão

Desde pequena ouço dizer que temos que perdoar 70x7, confesso que entendia pouco sobre isto, não conheço muito da Bíblia, mas depois que aprendi a fazer a conta, comecei a pensar em quem sabe guardar alguns perdões para algumas pessoas especiais ou para situações que realmente fossem sérias.

Era um método fácil, poderia escrever num caderninho 490 linhas para ir anotando cada vez que eu perdoava, sem esquecer que eu devia dividir isto por pelo menos 75 anos que é mais ou menos a expectativa de vida do brasileiro. Depois pensei que deveria ponderar o uso dos meus perdões, pontuando para aqueles pessoas que também me perdoavam ou que de repente eu poderia precisar de perdão.

Não podia deixar de considerar que antes de dar a sentença final do perdão tinha que ser feita uma análise profunda se o fato realmente me ofendia, porque daí eu não gastaria alguns perdões atoa, se falo isto é porque sei que às vezes, uma situação parece ser mais dramática do que é, e depois de 3 ou 4 dias, o acontecido não passa de uma mera chateação.

Fiquei pensando como seria a situação quando alguém me pedisse perdão e eu, tendo que explicar que eu gostava muito dela, mas que como eu tinha alguns princípios lógicos sobre a conta do perdão não dava para perdoá-la, que nossa relação (amorosa, amigável, profissional, familiar) teria que acabar.

Aí a coisa começou a ficar séria! Vi que o status que a pessoa ocupava na minha vida também deveria ser um critério. Pense bem, eu não perdoar minha mãe, pai ou irmã, seria imperdoável e como eu desejava ser perdoada, porque gostaria de viver para sempre com eles, deveria guardar perdões para eles.

Me perguntei então, se eu seria capaz de viver com alguém sem perdoá-lo, não consegui chegar a uma resposta. Mas, teve um dia que assistindo a um programa de televisão, ouvi um padre dizer que perdoar não é esquecer, que perdoar é não crucificar a pessoa pelo que ela fez, é aceitar os defeitos dela e a condição humana de que todos erram. Não sei ao certo se foi bem assim que ele falou, confesso que não sei se entendi bem ou se quis me aproveitar de suas palavras para facilitar minha missão de saber perdoar.

Assim, comecei a ver que este negócio de perdão não era muito fácil, e o pior foi que o padre disse, que às vezes, precisávamos fazer uma análise se realmente tínhamos conseguido perdoar as pessoas, se apesar de não esquecer o que gerou o desconforto isto não nos impedia de prosseguir na vida.

Com isto resolvi rever minha lista de perdões, os critérios adotados por mim, quais se encaixavam nas recomendações cristãs dadas pelo homem que prega a palavra de Deus e entende mais que eu sobre isto, pelo menos na teoria e vi que isto levaria um pouco mais de tempo do que eu imaginava.

Vi que alguns dos perdões que eu tinha anotado ainda me massacravam num sentimento antigo, vi que algumas coisas que perdoei hoje se pareciam tão patéticas que na atualidade jamais entrariam na lista de perdão, vi que em alguns momentos da minha vida eu tinha usado muitos perdões, ocasiões que eu me encontrava em desarmonia comigo mesma. E foram tantas reflexões sobre isto, que não pude deixar de ver que eu não tinha aprendido nada ainda sobre a cota do perdão.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

MINHA BOLSA DE CRIANÇA

Outro dia, num destes almoços de família fiquei observando minha sobrinha. Ela, no vigor dos seus 2 anos, calçada nos sapatos de salto da minha irmã, segurando uma bolsa quase maior do que ela e com um moderníssimo celular, andava tropeçando pela casa e dizendo que estava falando com o pai, um papo que ninguém, além dela, entendia.

A cena parecia engraçada, e quem estava por perto curtia com boas gargalhadas, mas eu tive uma sensação de terror e saudades. Um momento entre minha vida e aquela bolsa cambaleante levada por uma criança capaz cruzar o passado e o futuro.

Pensei num futuro que parece cada dia mais próximo, não pelo tempo, mas pelas crianças estereotipadas de adultos, mas ao mesmo tempo sem responsabilidades. Cada vez mais cedo as crianças se vestem e portam como adultos, mas em compensação os adultos cada dia menos se mostram responsáveis com as obrigações da idade.

Foi um temor passageiro, porque num piscar de olhos vieram algumas lembranças saudosistas rasgando aquele pensamento. Como teria sido minha bolsa de criança, será que eu também tinha começado a andar de salto tão cedo assim, será que desfilei algumas vezes perante a família me fazendo de uma grande executiva, uma pessoa que demonstra seu sucesso pela bolsa que carrega?!

Esperei aquela cena se desdobrar com grande interesse se em algum momento aquela menininha abriria a bolsa, o que a interessaria lá dentro ou qual dos brinquedos que ela guardaria; isto poderia significar uma luz no mundo dos adultos, mas nada disto aconteceu, ela se limitou a desfilar com o objeto como se tivesse imitando a mãe e sem jamais imaginar o que representa ter uma bolsa. No fundo no fundo ela sabia que aquela não era a bolsa de suas brincadeiras.

Em mim, ficou o desejo de ter uma bolsa como a de uma criança, sem contas para pagar, sem boletos tão desejosos pelo fim, sem peso de responsabilidades, sem contracheque grevista, sem objetivos frustrados, escondidos nos bolsos. Enfim, uma bolsa pronta a embalar o sonho infantil da vida adulta, a mesma que eu, por um minuto, tive vontade de transportar e voltar para a época das fraldas, em que na bolsa só tinha brinquedos.

Não é que eu queira fugir da vida que levo, é que realmente o sonho infantil é lindo, sem atropelos, meio termo ou contratempos, é que realmente muitas vezes desejamos coisas sem saber o que têm guardado em seus bolsos, nos vendemos ao glamour das historias de fadas.

Então, depois de alguns minutos curtindo o real e o irreal da cena, levantei –me, bati uma foto da personagem futu-regressiva encenada pela minha sobrinha, dei uma risadinha como se falasse sozinha, peguei a chave do carro, a bolsa com o celular e me entreguei à vida de adulta.