quarta-feira, 18 de julho de 2012

JUNIM CRESCEU!!!



       Junim é meu vizinho, na verdade é Eduardo de Oliveira Junior, mas para nós que crescemos juntos basta, Junim. Hoje, não sei dizer a idade dele, deve ser algo entre 25 e 30, mas me lembro dele com uns 4 ou 5 anos, na verdade lembro-me dele e de outros vizinhos, época em que todos crianças brincávamos na rua. Passamos desta fase de brincadeira e hoje somos todos adultos, mas acho que eu esqueci de considerar que o fim das brincadeiras de criança era o fim de uma fase da vida.

       Um convite de casamento me alertou para este fato, Junim cresceu e vai casar!!! Mas, isto foi só um fato descrito num papel que eu li e deixei sobre a mesa. Só aceitei esta realidade quando no dia do casamento eu tirei o carro da garagem e vi a movimentação dos vizinhos para irem ao casamento do Eduardo de Oliveira Junior, o Junim crescido!

      Depois que o carro saiu totalmente da garagem pelo retrovisor vi nas calçadas os vizinhos bem vestidos, eufóricos organizando os últimos detalhes da roupa, tirando fotos, pondo os meninos no carro para não se atrasarem para o grande evento, ver o Junim dizer sim em público para a vida de adulto e pai de família. Uma calçada parecia ser mais especial, tinha muito mais pessoas e carros estacionados, era a da casa do noivo, entre várias pessoas parecia que uma brilhava mais, me pareceu ser a mãe do Eduardo Junior.

       Confesso que todo aquele agito mexeu comigo, não só me dei conta que meu vizinho cresceu e estava pronto para virar um pai de família, mas também enxerguei num dos meus retrovisores o passado, onde todos corriam como verdadeiros moleques pela rua, sem pensar que um dia teríamos a responsabilidade da vida adulta. Extasiada com aquilo tudo fiquei algum tempo com o carro parado no meio da rua, olhando pelos retrovisores, vendo a movimentação e ao mesmo tempo passeando entre as lembranças. A minha vida tinha sido simples e tinha se entrelaçado na vida daquelas pessoas por muitos momentos.

       Como um sonho louco comecei a imaginar todos na igreja, emocionadas com a importância de um enlace e me dei conta que apesar de só nos cumprimentarmos hoje em dia, tinha muito mais dos meus vizinhos em mim do que eu imaginava. Naquele momento, se pudesse, eu teria gritado convidando-os para brincarem de bandeirinha, como nos velhos tempos, e depois que nossos corpos estivessem cansados e o espírito sorridente pudéssemos sentar no meio fio, eu e meus vizinhos crianças, e desabafarmos os últimos 20 anos, falando dos casamentos feitos, desfeitos e sonhados, dos filhos, do emprego, das contas, das frustrações e alegrias, das perdas e ganhos, enfim do que a vida tinha nos transformado nestes últimos anos em que passamos a sermos apenas vizinhos.

      O barulho do carro ligado me acordou da torpidez, perpassei os olhos de um retrovisor ao outro, enxergando ali o futuro, Eduardo Oliveira Junior naquela rua brincando com seus filhos, e a mãe dele, que tanto nos vigiou da varanda da sua casa, agora estaria adulando os netos, feliz porque o Junim cresceu. Me despedindo daquela cena, acelerei o carro, aumentei o som e passei a admitir, aquela rua era a mesma desde que eu moro nela, 27 anos, mas a vizinhança tinha mudado porque o Junim cresceu, a irmã dele, a minha irmã, a vizinha do lado esquerdo, todos cresceram e eu também cresci.


Luciane Dias
Jul/2012







terça-feira, 3 de julho de 2012

ELE É BOM OU MAU ALUNO?!

     No mundo de hoje é difícil saber o que é certo e o que é errado, isto porque pelo dito popular hoje tudo é permitido. Em um parecer, um jurista diria que tudo é permitido, mas nem tudo é lícito. Um evangelizador diria que tudo é permitido, mas nem tudo é cristão. Um médico diria que tudo é permitido, mas nem tudo é saudável, assim para cada situação desencadeia um pensamento acerca do que pode e do que não pode ser correto. Mas, uma coisa é certa, os parâmetros tem se modificado junto com a cultura, a educação, os princípios morais, religiosos e sociais.

     Eu consigo perceber isso de vez em quando na escola que trabalho. Tem sempre aqueles alunos que não fazem os deveres, que vão de roupa curta ou sem uniforme, que querem ficar pendurados no celular durante a aula, que gritam com os colegas e querem resolver tudo nos tapas, que não entregam as atividades, que desafiam os professores amassando as atividades, se negando a fazer os trabalhos e nós como professores quando vemos que mesmo depois de muita conversa não conseguimos fazer com que o aluno entenda que este comportamento não é apropriado dentro da escola, partimos para o último recurso que é chamar o responsável. Mandamos um bilhete e esperamos ansiosos pelo responsável no intuito que este nos ajude a fazer com que esse aluno aprenda algo, que se ele não levar a vida acadêmica a sério, que pelo menos consiga nota para ser aprovado no fim do ano. Por vezes, quando o responsável chega à escola nossa surpresa é muito maior do que aquela que nos ronda, porque o aluno não consegui assimilar depois de 5,6,7 anos na escola as regras que persistem em serem as mesmas ano após ano.

     Na presença do representante do aluno, eu, particularmente, me sinto como uma transgressora das regras pessoais da vida daquela criança/adolescente, me sinto desolada do mundo dela, como se eu estivesse fazendo tudo de errado. Vocês podem não estarem entendendo, mas é isto mesmo, diante do representante eu passo a ser a pessoa desordeira de uma cultura já estabelecida na vida daquela criança, porque se ela já passou 5,6,7 anos na escola, ela passou muito mais na convivência de seus familiares e foram eles que ensinaram o que é certo e o que é errado. Acho que a psicologia diz algo como: são nos primeiros anos que acontece o verdadeiro aprendizado e depois ela só vai assimilando as outras informações, então os conceitos que eu passo como "educadora" para esses alunos podem ser contraditórios ao que eles receberam em suas residências, a prova disto é quando me deparo com a pessoa que vai à escola para tratar dos assuntos pedagógicos do aluno.

     A pessoa que chega quase sempre é a mãe e por algumas vezes se apresenta de um jeito bem típico: short curto, blusa mostrando a barriga, fone de ouvido e celular pendurado no bolso enquanto toca uma destas músicas que não tem propriamente uma letra, é mais algo como tchu tchu tcha, chupando chiclete e falando gíria, diz que foi ali para tratar da advertência recebida pelo filho e que gostaria de ser recebida rápido porque tem mais o que fazer em casa e que se o filho tiver feito algo errado irá apanhar muito quando chegar em casa. Outras vezes, o pai aparece na escola, mas infelizmente algumas vezes está bêbado, chega falando alto e dando tapas nas mesas.

     Diante desta situação, penso duas vezes se devo relatar a vida escolar do aluno, já nem sei se ele está errado ou se eu estou. Rapidamente entendo que o aluno não assimila as regras da escola porque ele vive em ambiente diferente, os exemplos devem falar mais forte do que as regras que eu falo para ele que devem ser seguidas. Em meio a um e outro professor que fala sobre o comportamento do aluno e a mãe também diz algumas coisas, começo a pensar que o menino não é assim tão ruim, que o comportamento dele é um reflexo da educação que recebe todos os dias, que talvez ele tente fazer diferente na escola, mas já está tudo tão intrínseco que ele não se controla. Assim, o meu lado sentimental psico-professora começa a achar que aquele menino é um anjo perante a educação que ele recebe, que ele faz uso a famosa frase "educação a gente trás de berço". É uma situação realmente desoladora, difícil de explicar e de conviver, mas com certeza capaz de me deixar com duplo peso na consciência; não posso deixar o aluno fazer o que ele quer, preciso repassar para ele o mínimo de responsabilidade, de respeito com os demais, de conteúdos, mas também tenho que respeitar a individualidade dele porque ela vem de um meio ambiente que parece estar errado aos olhos dos professores, mas de repente não da comunidade em que ele vive. Tudo aquilo é como um DNA que vai passando de geração em geração, com certeza estes pais passaram por situações semelhantes quando da sua adolescência e isto veio se intensificando pelas interferências de cada época, de cada lugar que moraram, de cada nova família que se formou e que trouxe pensamentos diferentes.

      Depois da mãe ir embora, volto para a sala de aula e entre uma aula e outra me encontro com o aluno que me pergunta o que ficou decidido entre a mãe dele e os professores, dou um tapinha nas costas dele, balanço vagarosamente a cabeça e digo para ele todos os professores conversaram no dia da coordenação sobre o caso, que o encaminharemos para o Serviço de Orientação Educacional porque precisamos rever toda a situação dele, agora a conversa tem outro foco, mas que enquanto este momento não chega, nós podemos nos encaminhar para a quadra e ter nossa aula de Educação Física, porque lá sim todas as regras são iguais independente da localidade, do padrão social, da raça ou do tamanho, as regras do jogo de futebol, de vôlei, de handebol ou de basquete são as mesmas aqui ou na China.


Luciane Dias